Capítulos 02 e 03: De Acordo com a Morte

02

Poucos minutos depois de entrarmos, os outros alunos começaram a chegar… alguns deles demonstravam grande aflição pela prova no horário anterior. Particularmente, eu não considero uma prova escolar motivo suficiente para ficar arrancando os cabelos.

“Boa Tarde.” Saudou Fernanda, entrando depois de um tempo – como sempre, atrasada. Alguns alunos responderam, outros ignoraram…. Fiquei no meio termo, cumprimentei-a com um aceno tímido de cabeça. Acho que ela nem notou.

“Antes de começarmos nossa aula, quero contar uma grande novidade a todos!” Ela estava eufórica e nervosa. Mas, convenhamos que em cidade pequena nunca nenhuma “novidade” é realmente uma NOVIDADE. Então, não entendi o porquê da euforia. “Semana que vem… Na próxima sexta, na verdade. Nossa escola vai juntar as turmas de terceiro ano da manhã e tarde para uma excursão histórica!” Concluiu ela, praticamente dando pulinhos.

Nossa cidade não tem museus, zoológicos ou nada do gênero. Fiquei curiosa para saber onde iríamos. As montanhas, talvez? Não, não era possível. E… É um tanto complicado aquele lugar, se eu fosse desenhar num mapa a geografia de nossa cidade, juntamente com a das montanhas, com toda a certeza eu complicaria a cabeça de todo mundo que tentasse entender.

“Todos já devem saber mas, o conjunto de montanhas que nos separam do resto do mundo, é reconhecida regionalmente por ser cercada de mistérios e belezas que até hoje intrigam todos os historiadores que têm o prazer de visita-la.” Embelezou. Era desnecessário, mas, professores precisam dar o ar de todo o seu conhecimento ao explicar alguma coisa.

Nossa cidade é meio que considerada uma prisão por alguns e refúgio por outros, de um lado montanhas e do outro, um grande e largo rio que nos separam do restante do estado, sem contar o nome que a montanha recebeu nos últimos anos, um nome bem perturbador. Há uma única estrada que passa por entre elas. Esse atalho de BR é o que leva e traz tudo o que há do outro lado das montanhas. Antigamente, o que hoje é a estrada era rota de fuga de escravos no período vergonhoso da história brasileira. Índios e africanos escravizados vinham se esconder aqui, tentando construir uma nova vida. Alguns escalavam as montanhas, outros permaneciam na planície, próximos ao rio. Matemática básica: 2 + 2 é igual a 1 dólar e, período escravocrata + montanhas + longo rio + clima + índios, negros e brancos = muita, mais muita história para contar.

“… Então, a única coisa que precisamos que vocês façam é: Levem este documento aqui para seus pais, pedindo a autorização deles.” disse Fernanda, enquanto deixava em cada carteira uma cópia do tal documento. “Assim que trouxerem, amanhã na nossa próxima aula, explicarei tudo sobre a nossa aventura que vai durar três dias! Conheceremos toda a história da nossa cidade, diretamente da fonte. Animados?” Terminou, voltando para a frente da sala e olhando esperançosa para nós.

“Professora… Porquê vamos justamente para lá?” Interrogou Rick, do fundo da sala. “Todos evitam ir nessa época do ano. Aliás… Ninguém que mora aqui vai lá a anos!! Só os de fora que não sabem de nada e acham mó barato viver “aventuras”. ” Concluiu ele, com um tom irônico ao dizer “aventuras”.

Fernanda suspirou, um pouco desconcertada, mas tentando se manter firme. “Temos que perder o medo, é a história da nossa cidade, do nosso povo!” Enquanto falava, olhava profundamente para cada um de nós. “Por mais que os últimos anos tenham sido trágicos, não temos que ter medo e antes de vocês irem embora daqui, procurarem a faculdade dos sonhos e tudo o mais… É justo e necessário conhecerem de perto o início de todas as nossas vidas.”

“Tá mais para fim de vidas, isso sim.” Resmungou Rick, novamente.

Nos últimos anos, muitos acidentes aconteceram. Muitas vidas caíram – literalmente – e, a montanha mais alta recebeu o nome de Ceifadora, já que por lá, muita gente morreu… A maioria de forma bem inexplicável.

Rick, era o revoltado da turma, sei o seu nome justamente pela fama que ele recebe por isso… Nunca fomos próximos e durante os três anos do ensino médio que estudamos juntos, conto nos dedos de uma mão as vezes em que nos falamos. Além de minha amiga, eu não conseguia prestar atenção no resto do colégio todo. Se desconfiar, eu não sei o nome de nem metade dos meus colegas. Não sou obrigada. Mas, Rick tinha razão. É verdade, nem a mais mórbida da turma (no caso eu, segundo eles) estava corajosa o suficiente para passar três dias em uma montanha que recebeu o nome de Ceifadora.

Não quero “Ser Ceifada” por ninguém… Ainda tenho muito o que viver e, particularmente, o meu maior sonho é ir embora daqui.

O medo da morte, permanece até mesmo no mais corajoso coração.

Nana

03

Tento não fazer barulho ao pegar a chave da porta da frente de casa, tínhamos um cachorro e os dias dele estavam contados se dependesse dos vizinhos. Respiro fundo e faço o mesmo esforço para não ser ouvida ao abrir a porta. “Ufa”, suspiro.

“Mãe?”, pergunto baixinho andando passo a passo por cima dos cascalhos antes de chegar na área de casa. ‘AU AU AU AU AU AU AU!’ Théo late em alto e bom som surgindo do nada e correndo até mim. “Shiiiiu, Théo por favor… p-o-r f-a-v-o-r”, imploro. Théo é um Labrador, enorme como eu nunca imaginaria que um cão dessa raça pudesse ficar. Ele pula em cima de mim, expressando toda a sua felicidade em latidos. Ele não sabe amar sem estourar alguns tímpanos.

“Finalmente!” Diz minha mãe ao abrir a outra porta para mim. Eu tinha a chave da frente, mas, não tinha as cópias para entrar MESMO em casa. Medidas de segurança, segundo ela, já que eu perdia muito fácil minhas chaves. Portas e janelas blindadas são difíceis de quebrar, e para ela assim era mais seguro. “Entra logo e deixa o Théo do lado de fora, limpei a casa faz pouco tempo”. Resgato minha mochila da boca do cachorro e jogo os sapatos para ele brincar, espero que os destrua.

“Cadê o pai?”. Jogo minha mochila no sofá e vou me arrastando atrás de mamãe, hipnotizada pela expectativa de ter alimento na cozinha já que estamos andando para lá.

“Ainda não chegou do trabalho”, lamentou-se olhando para o relógio de pulso. “Acho que está complicado para ele no hospital”. Conclui, olhando para mim e sentando perto do balcão. Vou até o fogão, abrindo todas as tampas de panelas. Fico internamente frustrada por não ter sobrado mais nada quer valesse a pena do almoço. “Parece que ele é o único médico daquele hospital, toda semana um plantão mais demorado que o outro. Estou cansada de ver aquelas olheiras nele”. Quando ela volta a falar, sua voz parece mais cansada e mais nervosa. Minha mãe odiava ficar sozinha seja longe do pai ou de mim.

“Fica tranquila mãe, as férias dele estão quase chegando e a gente vai poder viajar”. Sento em outra cadeira, apoiando meus cotovelos no balcão. “A gente vai viajar, não é?” Arregalo o olhar esperando uma confirmação. Há tempos não viajamos e, na maioria das vezes é por desistência na última hora. Minha mãe sorri brevemente e acena que sim com a cabeça. Uma onda de alívio me atinge.

“Ah, e por falar em viagem”, levanto e vou rapidamente na sala, voltando logo em seguida. “O colégio está preparando uma mini viagem e eu trouxe o formulário para a Senhora autorizar”. Quando termino de falar, já estou com o papel em cima do balcão. “… Ou não” instigo.

“Você quer mesmo ir?”. Ela pergunta, um pouco incrédula ao terminar de ler. “Não tem medo? Não sei filha, por mais que possa ser ‘seguro’ viajar com a escola. A Ceifadora me dá medo”. Se justifica.

“Eu realmente não me importo em ir ou não… Eu só acho que vamos acabar fazendo uma prova depois. Eles não iriam nos levar sem que isso fosse valer nota”. Não sei porque disse isso. É claro que estou com medo de ir, mas se vamos ser sinceros, vamos até o fim.

Ela muda a expressão e parece considerar não ser tão do contra. Uma boa nota com uma boa participação em atividades escolares, parece ser um bom motivo para arriscar perder a vida de uma filha. “Peraí… Oi?”. Penso, me recriminando internamente.

“Me dá uma caneta”, diz minha mãe estendendo a mão. Procuro rapidamente na mochila e entrego uma qualquer para ela. “Vou tomar banho”. Levanto e, calçando uma havaiana que estava próxima a geladeira, vou para o banheiro. De repente, meu corpo todo pareceu suar. O suor era frio.

“A morte é como o vento, está sempre ao meu lado”.

Arnaux

“Sim, minha mãe assinou. Eu vou”. Gravo e envio o áudio para o Whatsapp de Adriele. Depois de banhar e deitar na minha linda cama. A preguiça de digitar é mais forte e apesar de ser minha melhor amiga, ela não aprendeu nada comigo e continua transmitindo muita covardia. Eu tinha medo, mas, acima de tudo deixar transparecer que sente medo é mais perigoso do que o medo em si.

“Fico mais segura sabendo que você também vai mas, mesmo assim… Eu acho que não vai dar”. É o que recebo dela depois de uns minutos. Ela deve ter contado para o pai que eu também iria.

“Tudo bem se teu pai não te deixar ir, mas, não use isso como desculpa”. Respondo, de novo por áudio. “Tu pode recuperar a nota depois, com outra atividade. Mas tem certeza que vai deixar se vencer pelo medo de uma montanha?”. Observo o áudio ser enviado e ela visualizar. Fecho os olhos por um breve momento já que a luminosidade do celular me incomoda se fico muito tempo olhando-o.

Assim que decido abrir os olhos, ouço a garagem abrir e um pouco da tensão do meu corpo se esvai. Eu amo meu pai e, não sentir que ele está em casa me deixa sempre nervosa. Levanto, já sabendo que sou eu que terei que correr atrás do Théo. Garagem abrindo + Carro + Rua = Théo enlouquecido. Dou uma mini corridinha até a parte da frente de casa, ainda deu tempo de ver o rabo peludo do Théo sumindo pelo portão da garagem e, sem demora corro atrás dele, o chamando.

Quando volto puxando ele pela coleira, vejo meus pais me esperando na calçada sorrindo para mim e, me pego retribuindo o sorriso dos dois. Até o Théo solta um latido feliz, dessa vez sem tanto escândalo.

Roberta e Marcelo, eu morreria por esses dois.

“Como você sempre consegue sorrir mesmo depois de se matar de tanto trabalhar?”. Pergunto, tentando lidar com o peso do Théo que ao ver um carro passando sai do clima e volta a ser atrevido. “Devia pelo menos ficar com raiva às vezes”, reclamo ofegante de tanto me esforçar para colocar o Théo em casa. O portão da garagem se fecha aos poucos assim que meus pais entram. “Não que eu esteja reclamando e queira o mal, mas ter raiva as vezes te torna mais humano”.

“Já tenho raiva suficiente no hospital”, responde ele esboçando cansaço pelo sorriso que dá logo depois. “Em casa eu só quero estar feliz com as minhas mulheres”. Conclui.

“E o Théo”, brinca minha mãe, beijando-o na bochecha.

“E o Théo”, ele responde, olhando-a nos olhos.

“E a morte”…

Sussurra o Vento.

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Da série: As Primeiras Lendas

A Primeira Lenda

No princípio havia a Vida, a Força e a Natureza. A Força protegia a Vida, a Vida mantinha a Natureza e ela os nutria em gratidão. As três coexistiam em harmonia e juntas criaram os Primeiros Homens, ensinando-os a cuidar da terra, protegerem-se dos perigos, manipularem o fogo e o ferro criando assim as primeiras armas, conquistando os primeiros reinos e erguendo os primeiros castelos. Os homens então viraram-se contra seus criadores, procriaram-se com o desconhecido e destruíram a natureza.

A força então enfureceu-se com os humanos, ludibriou a Vida conseguiu o seu segredo e criou os Imortais, – Guerreiros criados para conter, julgar e defender a humanidade – porém, tramando com os impuros destruiu metade dos homens, atacando-os em suas fraquezas. A Vida uniu-se aos justos, aprisionou a força e os seus imortais no lado escuro do mundo e sacrificou-se pela redenção de sua criação, dividindo a terra, prendendo-se para sempre na escuridão.

A Natureza pouco a pouco voltou mas notícias da Força, seus Imortais e a Vida nunca mais surgiram. O mundo então dividiu-se, os justos e a Natureza no lado onde é sempre sol e os impuros e criaturas imundas no lado oculto da terra. Diante do sol e no sempre verão, a natureza prosperou e fez os homens crescerem. No lado frio e sempre escuro da terra lá estava ELA, a Força. Pronta para se vingar, agora com a magia da Vida e os guerreiros imortais banhados de sangue impuro.

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Capítulo 01: De Acordo com A Morte

Prólogo

“Tenha medo do tempo pois por ele a morte estende seus dedos”.

“Quanto mais se vive, mais perto da morte estarás”.

Os inocentes comemoram o passar dos anos, julgam estar mais sábios e mais conscientes porém, de nada sabem e de nada entendem. A morte é uma passagem? A morte é uma prisão? Já sabemos de tanta coisa enquanto vivos, porque nada ainda se conhece sobre o que existe do lado de lá?! Tantos estudos e livros supostamente escritos pelos desencarnados e, nada de concreto sobre a ‘amiga inevitável’ realmente existe.

Ela visita aos que já a esperavam, brinca com os que sequer imaginavam recebê-la e, é desenhada e guardada no interior da alma daqueles que negam a sua existência.

Dedico este livro a todos aqueles que a temem e a admiram.

De Acordo com a Morte, seus dias passarão a ser contados.

01

Sapatos. De tudo o que o ser humano é obrigado a usar, os sapatos estão no topo da lista ‘Desconfortáveis e Complicados’ presentes no Manual da Vida. Atravessando o pátio da escola e olhando para os meus pés, constato que não adianta mudar as passadas… Meu calcanhar vai continuar gritando em carne viva, pedindo um pouco de vento e liberdade.

“Tá doendo”, digo para mim mesma. Estou esperando que a mensagem verbal chegue a meu cérebro e de lá, os antídotos para a dor passem a ser produzidos com ardor. Tento encurtar o caminho pisando na grama protegida do pátio, nesse exato momento escuto o vigia da escola apitar. É fato, todos os olhares dos alunos ali presente desviam-se para mim e, uma vontade gritante de sumir dentro dos meus sapatos me assoma.

“Aisa! Você não pode pisar na grama!” grita o vigia, com o apito ainda entre os lábios. “Aliás, ninguém pode!” reitera ele, agora olhando em volta para todos os outros alunos e funcionários da escola. Além de mim, naquele momento, todos param e olhando para os próprios pés certificam-se de que estão em locais apropriados.

“Não foi intencional, juro.” ergo a cabeça e, olho ao redor de mim procurando justificativas. “Eu só precisava cortar caminho…” admito depois de um curto tempo. “meus pés doem e eu preciso sentar.” O vigia – que a anos trabalha na escola, – mas que nunca decorei o nome – olha para mim com desaprovação e espera eu sair da grama. Volto para o cimento e, agora desviando do gramado continuo meu caminho, perdida em minhas lamentações. O vigia assume novamente sua postura vigilante procurando novas infrações e, o resto dos alunos… Bem, eu não sei nada sobre o que não me interessa.

Depois de andar o que me pareceu uma eternidade, um banquinho feito de mármore logo embaixo de uma árvore frondosa ganha forma diante de meus olhos. Sento, tirando de meus pés o peso de todo o meu corpo. O banco não está quente, coloco minha mochila no chão e imediatamente tiro meus pés da prisão enclausurante. Sempre tive problemas com sapatos.

“Tu acha que foi bem?” minha amiga diz, ao se aproximar o suficiente para ser ouvida. “Eu tô realmente com medo do resultado.” sentando-se ao meu lado, leva as unhas que ainda não foram roídas à boca, e olha a porta da sala da nossa última aula, que de longe parece uma verdadeira boca de monstro.

“Relaxa, essa prova é a primeira do semestre.” respondo, depois de uns poucos minutos. “Qualquer coisa, a gente tenta recuperar na próxima”.

“Fácil falar!” ela reclama. “Quero ver estudar de verdade quando chegar a hora”. Senti uma leve indireta no tom usado por ela.

“Nem vem Adriele, nem vem.” respondo, um pouco irritada. Meus pés estavam aliviados, mas o meu estresse não “Eu sempre estudo quando é necessário.” Ela bufa, irritada e visivelmente nervosa, Adriele sempre fica nervosa depois de qualquer tipo de avaliação. Levanto, pisando rudemente na volta do sapato que cobre o calcanhar, pego minha mochila e ao ouvir o sinal, vou para a próxima aula. Adriele vem logo atrás e juntas alcançamos nossas carteiras.

FIM

“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.”

Friedrich Nietzsche

N. A.:

Olá a todos, espero que tenham gostado do que foi escrito até agora. A narrativa pode estar um pouco lenta, até com detalhes demais mas… Acreditem! Tudo isso comporá a parte decisiva de todo o processo!

Durante o processo de escrita, vocês verão algumas alterações, trechos organizados de formas diferentes e alterações no que já escrevi (trechos apagados, etc) e vocês podem considerar isso como forma de evolução. Ok? Assim que o livro estiver finalizado. Nada de estranho irá ocorrer rs rs Prometo!

Conto com o feedback de vocês e… Conversem comigo pelos comentários. Estou ansiosa para ler a opinião de vocês! 

Até o próximo post.
Att,

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Saiba que ELA te amou.

Olá, tudo bem com você?

Esse é o primeiro post do meu blog, inteiramente meu e dedicado a mim, estou achando isso incrivelmente animador e ao mesmo tempo sufocante; tudo aquilo tende a ser ‘obrigatório’ me faz sufocar e/ou querer desistir. Então, de imediato, irei tratar de pensar neste blog como meu psicólogo-silencioso-gratuito. A crise está feia e todas as formas de neutralizar a bad é válida.

Apresentações e explicações à parte, vamos ao post!

Estou escrevendo especialmente para os filhos, à você que assim como eu perdeu ELA e não sabe como lidar com os sentimentos que surgem antes, durante e depois do dia das mães. Não há didática que te faça suportar o aperto no peito e a angústia ao perceber que não há como falar com ela, como presenteá-la, abraçá-la, etc.
Este não é um tutorial de “como sofrer menos”, “como sobreviver a este dia” ou “como-fugir-do-dia-das-mães-e-fingir-que-ele-não-existe”.

Primeiro, vamos aos pontos: Os primeiros meses são insuportáveis, você se sente perseguido e ameaçado 24 horas por dia, a ficha demora a cair e a casa parece um deserto, toda a energia e sensação de segurança que o teu lar possui vai embora e, não importa onde você venha a morar depois: Lugar nenhum parecerá ser seu.
Antes das lágrimas vem a incredulidade, é como se não fosse real e não estivesse acontecendo com você. Tenho sonhos constantes em que a minha realidade é uma farsa e que na verdade, ela está viva. Ai ai, a vontade que dá de dormir para sempre é tentadora, passamos a rejeitar a realidade e de vez em quando eu me pego me beliscando ou procurando “erros na matrix” que me façam voltar ao que é “real”. Depois da incredulidade vem as lágrimas, as profundas e dolorosas que te doem o corpo, te secam e te adoecem… Não lembro de três meses da minha vida, nesse meio tempo uma nuvem negra me cercava e todos os sentimentos bons tinham ido embora, eu era um poço fundo e vazio, nem os meus gritos ecoavam.


Por fim, vem o agora: A eterna resignação, você aceita o que vive mas se recusa a esquecer. Então, não esqueça, só… Mude a perspectiva, visualize o que foi bom e se preencha com o amor que ela te dedicou. E é isto que eu quero tentar te levar a enxergar! O que você está passando precisa de um outro ponto de vista: Se você sente saudades, é por que houve amor e hoje em dia, com tanta falta de amor no mundo, ser ou ter sido amado é a melhor experiência que alguém pode ter.
Saiba que ela te amou, mesmo quando a dor do parto a destruiu por dentro. Saiba que ela te amou, mesmo não tendo sido concebido por ela. Saiba que de todas as pessoas do mundo, ela amou você. Deus a escolheu pra você e cada momento vivido ao lado dela foi seu e exclusivamente seu. Ela partiu, mas você pode ser egoísta ao afirmar que o único e verdadeiro amor da vida dela, foi você (sendo filho único ou não).
É isso o que me conforta, posso passar o resto da minha vida sem amor de terceiros, mas ela foi o meu primeiro amor e eu fui amado por ela. No dia dos pais, a mesma coisa… Nos aniversários, o mesmo. Não se recuse a viver, vai ser mais difícil de conviver com a ausência se você viver em negação.

Ela não voltará em carne, mas em seu coração o seu amor sempre existirá. Não perca a oportunidade de continuar sentindo esse amor. Não deixe o mal e a culpa corromper o que te liga à ela. Ela existiu e você, assim como eu, tem o direito de ser feliz. Eu estou sobrevivendo e, se quiser conversar comigo, pode me procurar…

Até o próximo post!
Att,

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